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Dira Paes

A atriz fala sobre o boto que sua avó teria visto, conta qual foi a sensação ao participar do primeiro filme e discorre sobre o seu verdadeiro nome

Por Edgard Reymann

Crédito da Foto: J. R. Duran

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Voltando à história do boto que a sua avó teria visto. Dizem que a mulher que vê um geralmente não resiste. Acha que pode ser neta de boto?
Não, não! Minha avó não correu risco porque ela já tinha tido filho. Porque o boto, naquela época, gostava de pegar virgens. Hoje, não sei se mudou... Vai que tem um que curte uma mulher mais madura. Mas boto não é novinho, não. É mais esse homem de quarenta anos. E, olha, o boto é a salvação da lavoura. E o meu já está em casa. (risos) Sem ele, muitas mulheres estariam perdidas.

2

Você estreou como atriz em um filme americano, Floresta de Esmeraldas. Como foram os testes?
O diretor se dirigiu a mim e eu respondi em inglês. Ele ficou surpreso e perguntou meu nome, respondi “my name is Dirrra”, com aquele sotaque inglês, forçando o “r”. “Do you speak english?” E eu “Yes, a little bit”, aquelas coisas que você aprende na primeira lição. “How old are you?” I’m fifteen. Me lembrei da aula que aprendi que tinha que pronunciar bem o “teen”.

3

Da literatura paraense, de quem gosta mais?
Olha, conheci a obra de Dalcídio Jurandir (1909-1979) em 2004. É uma pérola que não foi descoberta nem pelos próprios intelectuais de época dele, porque ele é de uma leitura que exige dedicação. É o meu ídolo no momento. O Dalcídio me levou a lugares únicos, nunca li nada parecido. Acho o Dalcídio atual. Teve entre seus grandes fãs Graciliano Ramos e Jorge Amado. Quem tiver a ousadia de ler Dalcídio, que não desista nas primeiras páginas. Insista. Aí você passa por um portal incrível. Sei que pertenço a uma restrita faixa de pessoas que puderam ler Dalcídio, porque seus livros há anos não são reeditados. Mas vale a pena ir atrás.

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E na música paraense, quem se destaca?
Mestre Verequete, em primeiro lugar, que está vivo ainda. Não vai ter nada igual a ele. E Mestres da Guitarrada, que fizeram algo tão original que é copiado no mundo inteiro.

5

Você interpretou Solineuza, moça de nome estranho para os ouvidos, aliás, como o seu, Ecleidira. Você gosta?
Eu acho incrível! Quando fiz Nininha, na novela Araponga (1990), meu primeiro trabalho na televisão, Marcílio Moraes (um dos autores junto com Dias Gomes, Lauro César Muniz e Ferreira Gullar), me disse: “Isso é um resquício dos gregos, que se manteve nos interiores do Brasil. Quanto mais original é o seu nome, mais original você vai ser.” Lógico que eu odiava meu nome até um certo tempo atrás até eu perceber que sou a única. Do mundo. Delícia, né? Não tenho homônimos. Sempre fui Dira, ninguém tem paciência de falar E-clei-di-ra! Sempre fui Dira, Dirinha, Preta, Pretinha. Hoje tenho um carinho muito grande pelo meu nome. Prefiro me chamar assim do que Daniele, Carolina, Cristiane. Daí sempre precisa de um sobrenome.

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Voltando à Norminha da novela, percebeu logo a empatia do público por ela? Qual o retorno que tinha dentro do estúdio?
Percebi na hora. O retorno chegava de ouvido, mas sem... (mostra que foi meio abafado, sem muito alarde). Você tem que ter fôlego para oito meses no ar. O desafio não é convencer, mas se manter.

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O que fez para se despir dela quando a novela acabou?
Tive só uma semana. É necessário se despir, voltar à sua essência. Você volta a ser uma tela branca. Vira terra fértil para um próximo trabalho.

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Qual o segredo?
Absorção de realidade. A Dira está presente até quando está em cena. Mas você precisa esvaziar o compartimento que estava preenchido, limpar e abrir caminho para o novo. E o novo entra pela absorção da realidade. Isso se dá muito rápido. Por exemplo, estava hospedada num super-hotel aqui em São Paulo e fui visitar uma ocupação feita por sem-tetos. Em um segundo você muda, absorve. Essa é a melhor parte. Preciso da minha verdade cotidiana como trampolim para novas ilusões.

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Como é o dia seguinte ao último dia do papel?
Você ta ressacado. Mas no meu caso tenho um menino de um ano correndo, pedindo carinho. Sabe que o Luis Fernando Carvalho uma vez num festival de Brasília, fez um elogio que adorei. Disse que Amarelo Manga tem uma grande qualidade: vc não leva nem um segundo pra acreditar nos personagens. Achei de uma profundidade... Minha despedida da Norminha foi no Casseta & Planeta. Era um último resquício de Norminha. De manhã fiz a última cena, fui para casa dei comida pro Inácio e fui pro Casseta gravar. Quando terminou fui para casa dormir.

10

Antes de começarmos a entrevista, você disse que tem cara de bicho. Que história é essa?
Ah, eu acho que tenho cara de pássaro, ou um inseto. Tenho um narizinho de pássaro. Brinco muito, fico falando “ainda não achei o meu inseto”. Tem insetos lindos. Vou procurar no museu Emílio Goeldi numa próxima oportunidade.

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