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11/08/2008 - 15:10
No topo do mundo
Premiado ao lado dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon com o Oscar dos quadrinhos, o roteirista e ilustrador Rafael Grampá fala à PLAYBOY


Rafael Grampá, 30, diz que não gosta muito de fazer parcerias. “Costumo ser muito individualista no meu trabalho”, explica. Mas, quando os quadrinistas (e irmãos gêmeos) Gabriel Bá e Fábio Moon bateram à sua porta em 2007 propondo uma colaboração, Grampá não tinha como negar. Afinal, esses foram os caras que o estimularam a deixar o trabalho fixo com computação gráfica e voltar a se dedicar exclusivamente à sua grande paixão – os quadrinhos.

Ao lado dos gêmeos, da americana Becky Cloonan e do grego Vasilis Lolos, o gaúcho assinou o álbum 5, que reúne histórias em que cada um dos artistas retrata um dia na vida do outro. A obra, editada de maneira independent, se tornou a grande vencedora da categoria de melhor antologia no Prêmio Eisner 2008. Mais do que uma “zebra”, a vitória foi um marco histórico: Grampá, Moon e Bá são os primeiros brasileiros a serem reconhecidos com o chamado “Oscar da nona arte” desde que ele foi criado, em 1988.

Nesta entrevista exclusiva à PLAYBOY, Grampá relembra a emoção de levar o caneco em plena San Diego Comic-Com, a maior convenção de quadrinhos do mundo, e fala sobre seu novo trabalho, Mesmo Delivery, espécie de “road-thriller” em quadrinhos recém-publicado no Brasil. Marcel Nadale


Como foi vencer o prêmio Eisner e se tornar o primeiro brasileiro com esse reconhecimento, ao lado do Fábio Moon e Gabriel Bá?

É até difícil de explicar. Eu acho que aquele terremoto que eles rolou na Califórnia foi por nossa culpa. Nossa loucura e nossa alegria foram tão grandes que causaram abalos!

Mas vocês nem imaginavam que tinham chance?

A gente nem imaginava. Estávamos competindo com obras muito profissionais. Era gente como o Chirs Ware, que desenha para a Times e é um dos meus ídolos! Havia concorrentes editados pela Fantagraphics, pela Image (editoras especializadas em HQs). Só material de primeira. E nós com um álbum lançado de maneira totalmente independente.

Como foi a decisão de lançar 5 sem nenhuma editora por trás?

O Fábio [Moon] e o Gabriel [Bá] fazem isso sempre. A idéia veio deles. Eles já conheciam a Becky, que é americana, e o Vasilis, que é grego e namorado dela. E queriam tocar esse projeto juntos mesmo. Eu fui o último a entrar no grupo, conhecia a Becky e o Vasilis só pela internet.

Como vocês dividiram o trabalho?

Eles me convidaram em junho do ano passado. Foi pauleira, trabalhei seis dias sem parar, virando noite, para poder entregar minha parte a tempo. Eles lançaram na Comic Con daquele ano, logo no mês seguinte. Fui responsável pela capa externa e pelas capas internas, que ajudam na transição entre cada uma das histórias que compõem 5. E nenhuma dessas tramas têm balões de fala ou texto, porque, como iríamos distribuir no Brasil, nos EUA e na Grécia, não queríamos que o idioma fosse uma barreira.

Nos EUA, boa parte da distribuição foi na Comic Con. E no Brasil?

Aqui, deixamos nas principais livrarias. Esgotou rapidinho. Tinha sobrado pouco e agora, depois do Eisner, acabou de vez. Só restaram as que eu tenho aqui em casa, umas 300. Agora vou vender cada uma por uns 500 reais!!! (risos)

Como foi a reação dos outros profissionais quando vocês levaram o prêmio?

Foi incrível. Essa foi minha primeira Comic Con e caras que eu sempre admirei minha vida toda vinham falar comigo. Gente como Brian Azzarello [roteirista de 100 Balas], Mike Mignola [criador do personagem Hellboy], Jim Starlin [roteirista da Marvel e da DC], Dave Stewart [vencedor do prêmio Eisner de colorização em 2003, 2005 e 2007]. O Azzarello, por exemplo, disse que nosso prêmio era maior do que imaginávamos. Era importante para a indústria de quadrinhos como um todo, porque sinaliza uma tendência de reconhecer e absorver trabalhos independentes.

Você sempre trabalhou como quadrinista?

Nem sempre. Nos anos 90, me envolvi com produção em computação gráfica, mas não tinha a chance de me expressar. Em um dos trabalhos, chamei o Fábio e o Gabriel para colaborar e foram eles quem acabaram me estimulando a voltar para as HQs.

Quando você parou de vez?

Em maio de 2007. Pouco antes de fazer o 5.

E nessa época você já começou a criar seu último lançamento, Mesmo Delivery (editora Desiderata)?

Já sim.

Terminou quando?

Em julho deste ano! Quase não deu tempo, acabei em cima do prazo de ir para a gráfica e lançar o livro! Ele já tava rodando as primeiras páginas quando eu estava finalizando as últimas. Mas não me dediquei esse tempo todo só ao Mesmo Delivery. No meio do caminho, fui chamado pelo produtor Rodrigo Teixeira para ser o designer de produção de O Dobro de Cinco, uma adaptação da graphic novel do [quadrinista e escritor] Lourenço Mutarelli. “Designer de produção” é um cargo que quase não existe no Brasil – é o cara que concebe todo o visual do filme, do cenário à maquiagem. E nisso foram uns sete, oito meses. Deve chegar ao cinema no ano que vem.

Qual a origem para a história de Mesmo Delivery?

Foi algo que não percebi de antemão, só enquanto estava fazendo. Foi quase uma terapia. Percebi que Mesmo Delivery era um acúmulo de referências da minha infância. Era como se eu estivesse revisitando um bloco da minha vida. Quando eu tinha cinco anos, meu pai era gerente de uma transportadora e eu e meus amigos brincávamos na boléia dos caminhões. Era a época de Além da Imaginação, a gente pensava em mil histórias, o caminhão era uma nave espacial. Mas também foi quando Comboio, do Sam Peckinpah (cineasta), passou na televisão. Depois que vimos o filme, nunca mais imaginamos que o caminhão fosse qualquer outra coisa. Brincávamos de ser caminhoneiros mesmo.

Depois do sucesso de 5 e de Mesmo Delivery, o que vem por aí?

Pintaram muitas propostas para fazer HQ, aqui e no exterior. Como roteirista, artista ou os dois. Estou analisando. Não posso falar muito. Só posso adiantar um pouco sobre Furry Water, uma graphic novel que estou desenhando e co-roteirizando com Daniel Pellizzari, um grande escritor da nova geração de autores. Eu já tinha o argumento e ele está ajudando a roteirizar. É engraçado, porque costumo ser bem individualista no meu trabalho, mas com ele funciona muito bem. A trama fala sobre um mundo pós-apocalíptico, mas não desses que já vimos antes – Daniel e eu estamos pirando mesmo, pensando em algo bem diferente. Nesse universo, cinco irmãos partem em busca do sexto membro da família.
 
 
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